MANUEL DE ARAÚJO SERIA A ESCOLHA IDEAL
Há factos que me surpreendem para os quais gostaria de encontrar uma razão lógica. A política, à semelhança de futebol, é um jogo sem lógica.”
Estava a caminho de Faro para exercer o meu direito de voto quando o meu telemóvel tocou. Era um amigo que queria me transmitir a notícia do dia no país que tinha a ver com o facto do nome do Eng.º Venâncio Mondlane ter sido indigitado para o cargo de Secretário-Geral (SG) do Movimento Democrático de Moçambique (MDM). Mal disse “bom-dia” para eu desconfiar, à partida, que o que vinha do outro lado do continente era uma notícia, já em si, irresoluta. Mas não constituía, para mim, uma novidade, até porque dia antes, na véspera do escrutínio, tinha lido no site “Moçambique para todos” do meu generoso amigo Fernando Gil, a mesma notícia, citando o Diário de Notícias.
Todavia, ainda que nada neste mundo me surpreenda, confesso que queimei alguns minutos da viagem, entre o apreciar a linda paisagem da terra do poeta António Aleixo (o autor do celebre verso: Sei que pareço um ladrão, mas há muitos que eu conheço que, sem parecer o que são, são aquilo que eu pareço), e compreender a razão da hipotética escolha do Eng.º Venâncio para o cargo de SG do MDM. Como não sou alheio ao MDM, sendo que, naturalmente, dei provimento a notícia do dia em detrimento da paisagem, até porque estava em condições de fazer as duas coisas em simultâneo – meditar e compreender a engenhosa magnitude da paisagem de Faro – foi o que aliás, mais tarde, acabei mesmo por fazer. Os versos de António Aleixo que tinha imbuído em Nampula, no tempo da academia, ajudaram-me, outrossim, a encontrar várias saídas para tamanha incompreensão da notícia.
Há uma enorme crise de visão a longo prazo que alguns partidos, às vezes até é o próprio Estado, revelam ao confiar os cargos de tamanha responsabilidade a certas pessoas sem o merecer, ou seja, em função dos títulos e apelidos de família que elas ostentam, em detrimento de quem tenha muita experiência e conhecimento de causa. Os títulos e os apelidos de família valem aquilo que valem. Nem sempre os títulos académicos são sinónimos de sabedoria. Quando assim acontece – só por milagres é que o nosso Aparelho do Estado não tomba – é porque estamos perante uma situação de tráfico de influências, o Estado está à deriva.
Estou em crer que o Eng.º Venâncio Mondlane não se atrelou em títulos nem no facto de ser filho de um dos militantes da Frelimo para si impor na plateia do social. Deve ter ralado muito coco – como alguns moçambicanos – para merecer o que é. Mas, verdade seja dita, o cargo de SG não é tarefa fácil, no mínimo, exige-se de alguém que tenha – acredito que o Eng.º Venâncio não tem – estômago de ferro e testa de betão para engolir tantos sapos. Pessoalmente tenho as minhas dúvidas se o Engº Venâncio teria tripas suficientes para levar o MDM ao poder, apesar do seu invejável currículo na área bancária. O crédito que possui na área bancária junta-se a de um excelente comunicador, arte que exerce com imparcialidade e isenção. Mas falta-lhe ser por dentro o MDM. Não basta pretender ou querer ser, é preciso ser. Falta-lhe, digo eu, uma certa originalidade e carisma. Para se exercer a docência, por exemplo, é preciso que o “bicho” esteja na massa do sangue da pessoa e não a solidariedade para com à área. Na escolha de uma profissão a caridade não deve ser um elemento fundamental, mas sim a competência merecida e reconhecida.
Foi precisamente o cargo para SG que levou à morte política de muitos políticos de gabarito, bem como dos seus respectivos partidos que, infelizmente, jazem no túmulo da desgraça como são os casos do PADEMO, FUMO, PAMOMO, PPLM, e muito recentemente o PDD, PIMO e companhia, LTD. Não compreenderam que ser SG é um cargo de alta responsabilidade e coragem, eu diria mesmo, de alto risco, qualquer passo em falso pode ser fatal, quer para a pessoa que o exerce quer para o partido que representa. É que o cargo de SG não deve ser confundido com o de comentador ou de porta-voz do partido. São realidades totalmente diferentes.
Ora vejamos, eu entendo que um comentador de televisão (sem qualquer intenção de fazer pouco ao Engº Venâncio) é aquele que faz a especulação dos factos, suposições, advinhas. É, no fundo, uma espécie de um curandeiro científico, enquanto um porta-voz é aquele que vende o programa do partido, faz eco ao pensamento do partido e defende-o, quando necessário, dos possíveis ataques públicos contra o partido. Mas atenção, não deve ser um papagaio como, aliás, se pode ver em alguns. Já o SG é o denominador comum, é aquele que tem o xadrez político do partido. É o SG quem, finalmente, conhece e organiza a base, porque ele, já em si, é uma base, para além de ser é uma espécie de pêndulo que executa todo uma função para a transmissão das horas.
O desaire político da Renamo fez com que muitos dos seus quadros de proa abandonassem aquele partido da oposição. Uma boa parte deles filiou-se ao MDM. Outros tantos ficaram órfãos políticos à espera de uma possível adopção (fica dado o anúncio). Finalmente um terceiro grupo, não sendo fanático do partido nem da política, mas emprestada a esta ingrata missão, apenas para servir de veículo para a difícil satisfação das reais necessidades do povo. Dentre os quais (depois de passar a lupa e a pente fino) resgato à figura do Dr. Manuel de Araújo.
Estamos a falar de um jovem político de mão, um académico que jamais renunciou a academia. Defendeu de forma peremptória e sacrificada os interesses do povo na última legislatura na “escolinha de barulho”, claro, no parlamento. Seria uma figura consensual no estandarte do partido, mas também a nível da plateia do social, visionário e de uma personalidade forte; o Dr. Manuel de Araújo (pessoalmente não o conheço de lado nenhum, nunca vi nem sequer faço a ideia da sua morfologia humana a não ser, francamente, através de uma foto sua de meio corpo postado no seu blogue, bem como através de obra feita) é um chamariz. Seria a minha aposta para tomar às rédeas do MDM.
O Dr. Manuel de Araújo não só seria um bom SG do MDM como também um estratega político para promover a imagem do partido além fronteiras. Uma coisa é certa, o xadrez político nacional é jogado no exterior. Os tempos que correm, para uma África à deriva e cada vez mais sangrenta, é fundamental construírem aliados fortes para garantir a sustentabilidade do partido. A arrogância e o conformismo ficaram para lá da história. É tempo da “nova geração” mostrar os seus dotes. E não venham dizer que a “nova geração” não serve para nada, porque é esta mesma geração, a nova, que tem vindo a multilicar-se de esforços para salvar alguns anciões, mas também alguns jovens, de muitas enfermidades como a malária, a tuberculose, o cancro, a menopausa, a infertilidade, etc., e, por outro lado, para que usufruam das tecnologias de ponta, o que antes era um sonho irrealizável.
A ser verdade esta notícia - não concordando com o nome do Eng.º Venâncio Mondlane - cabe, porém, unicamente, ao MDM decidir.
PS: Tanto Anibalzinho como Afonso Dhlakama, ambos gozam de prerrogativas do Estado moçambicano. O primeiro já confessou ter morto Carlos Cardoso, para além de se ter escapulido por três vezes das masmorras do país, fuga esta que teve involvência de altos quadros da PRM como ele mesmo, mais tarde, viria a confirmar; o segundo, o líder da Renamo, inconformado com os resultados eleitorais de 28 de Outubro, ameaçou incendiar o país caso os órgãos eleitorais não decidam inverter os resultados ao seu favor. Perante tudo isto é a PGR que continua a dormir, ou melhor, a bocejar.